Os riscos de a crise gerar uma revolução social

A definição clássica de uma crise revolucionária estabelece que esta só pode dar-se quando se conjugam dois factores: os de cima já não podem exercer o seu poder como vinham fazendo e os de baixo já não aceitam viver como antes viviam. Essa crise extremada não está hoje no horizonte pela ausência de uma alternativa global de regime político e económico, que implodiu, até à sua quase completa extinção, há duas décadas. Mas está em aberto a questão de saber se a actual crise global do capitalismo se contém na esfera das finanças e da economia, ou se vai galgar mais um degrau, inundando a esfera social.
Não é possível evitar ou eliminar o surto de mal-estar traduzido no aumento de até 50 milhões de desempregados a nível mundial, que já se admite como possível em 2009. O sofrimento adicional de milhões de famílias só pode ser minimizado pela actuação de Estados Sociais apetrechados para acorrer precisamente em situações como esta.
Mário Soares veio chamar a atenção para a justaposição de dois elementos, explosivos quando se conjugam: o empobrecimento de centenas de milhares de famílias no País e a sensação de impunidade dos ricos e poderosos. Quando Soares reclama por justiça firme para quem praticou “roubalheiras” em diversos bancos é neste cocktail explosivo que está a pensar. Uma conjugação fatal, que alimenta pulsões de destruição, como vingança de quem nada tem contra os que nada sofrem, mesmo quando abusam do poder. As mós da justiça movem-se com lentidão, é sabido. Mas a justiça sabe que tem hoje a pesada responsabilidade sobre os seus ombros de concluir os seus processos em tempo útil. Isto é, em tempo socialmente útil.
O debate quinzenal com o primeiro-ministro, ontem na Assebleia da República, estava destinado a discutir questões económicas, mas acabou por ficar marcado por um episódio que revela bem o ponto a que chegou a discussão político-partidária em Portugal. José Sócrates acusou o PSD de “lançar a suspeição” sobre si, após a insistência de Paulo Rangel, líder parlamenrar social-democrata, em saber o que pensa o chefe do Governo das notícias sobre escutas aos magistrados do processo Freeport alegadamente realizadas pelo SIS (embora não seja responsável pela coordenação prática dos serviços, o primeiro-ministro tem a sua tutela política).
A questão era legítima e alguém tinha que a colocar, mas Paulo Rangel partiu para esta discussão fragilizado. Habilmente, Sócrates colou o PSD ao que tem chamado de “campanha negra”, dizendo que o partido utilizou o cartaz da JSD (que tem o primeiro-ministro com um nariz de Pinóquio) para o “denegrir”. O que só aconteceu porque Manuela Ferreira Leite nunca se demarcou da sua juventude partidária.

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