Nau é base para projecto científico único em Portugal.

De um pedaço de madeira retirado das águas do Tejo, vestígio de uma nau naufragada há mais de 400 anos e agora replicada num modelo de 3,5 metros pintado de amarelo, nasceu um projecto científico único em Portugal. 
A 14 ou 15 de Setembro de 1606 – os historiadores não são unânimes – o naufrágio da nau Nossa Senhora dos Mártires junto ao Forte de São Julião da Barra, em Oeiras, provocou centenas de mortes e prejuízos materiais avultados com a perda da pimenta que a nau trazia a bordo, cujos grãos a flutuarem criaram uma enorme mancha no Tejo, visível ao longo de várias milhas.Para os mais racionais, é apenas uma mera coincidência mas para os mais supersticiosos poderia tratar-se de uma premonição. A verdade é que a Nossa Senhora dos Mártires naufragou juntamente com a Nossa Senhora da Salvação quando as duas naus estavam prestes a terminar mais uma viagem da Carreira das Índias, mas apenas quem viajava na segunda sobreviveu à tragédia.

Quase 400 anos depois, quando vestígios submersos foram escavados pelos arqueólogos Francisco Alves e Filipe Castro, foi recuperada do fundo do estuário do Tejo uma parte da quilha da N. Srª dos Mártires, com 12 metros de comprimento, e que agora serve de ponto de partida para um projecto científico único em Portugal que pretende descobrir os segredos da navegação das grandes naus da carreira das índias.

«O objectivo deste projecto de investigação é a reconstrução da nau e perceber como é que navegava, quais eram as suas qualidades náuticas e como é que a grande quantidade de pessoas que estas naus transportavam viviam a bordo, como navegavam durante seis meses entre Lisboa e a Índia e mais seis meses da Índia a Lisboa», explicou o engenheiro naval e coordenador do projecto do Instituto Superior Técnico (IST), Nuno Fonseca, que alimenta o desejo de ver a Nossa Senhora dos Mártires reconstruída à escala real.

Em colaboração com a Universidade do Texas, Estados Unidos da América, onde Filipe Castro é actualmente professor de Engenharia Náutica, uma equipa de quatro engenheiros do IST partiu do trabalho iniciado pelo professor universitário com a sua tese de doutoramento para reconstruir à escala de 1:15, a Nossa Senhora dos Mártires, que ficou também conhecida por ‘Nau da Pimenta’.

Com 3,5 metros de comprimento, casco pintado de amarelo e apoiada numa estrutura de madeira, a pequena nau, que o construtor naval Mário Figueiredo e uma equipa de formandos de carpintaria naval construíram no Arsenal do Alfeite, em Almada, lembra pouco a imponência das naus quinhentistas e seiscentistas que navegavam a rota da Carreira das Índias.

No entanto, é através desta réplica que os investigadores procuram obter respostas e preencher as lacunas que a ausência de documentação específica sobre a construção das embarcações da época dos Descobrimentos criou.

«Sabe-se muito pouco em relação a estes navios da expansão marítima portuguesa, porque nesta altura, século XVI e XVII, não havia ainda procedimentos de documentação e arquivo técnico ou procedimentos de desenho técnico e precisão geométrica exacta», explicou Nuno Fonseca.

A réplica já teve a sua primeira prova de fogo, quando, em Setembro, foi feito o «bota-abaixo», o primeiro teste em água, no Alfeite, e que serviu para comprovar não só a navegabilidade e estabilidade da embarcação como a exactidão dos cálculos feitos pela equipa do IST em relação ao que seriam as proporções das naus quinhentistas.

O passo seguinte deverá acontecer em Novembro com um ensaio num laboratório de hidrodinâmica em Madrid, uma instalação de grandes dimensões que contém um tanque de água com cerca de 300 metros de comprimento e com um dispositivo que permite rebocar a réplica de 3,5 metros.

«Nestes ensaios vamos tentar quantificar a interacção entre o casco e a água. Queremos saber a que forças é que o casco está sujeito quando é arrastado pela água, que depois nos vai permitir avaliar as qualidades náuticas da nau, saber que velocidades atingia, que ângulos fazia com o vento», explicou o engenheiro naval, que acrescentou que espera que as medições conseguidas sejam muito precisas do ponto de vista científico«.

Numa fase posterior, a equipa de engenheiros do IST pretende testar o modelo em condições mais realistas, a navegar no mar, com mastro e velas, e devidamente equipado com sensores que permitam medir »todas as respostas da nau à acção do vento e das ondas«.

»Queremos cruzar esta informação com a climatologia a que a nau estava sujeita na viagem entre Lisboa e a Índia e na viagem de regresso«, adiantou Nuno Fonseca, que acrescentou também que será necessário fazer um levantamento da ondulação, vento e correntes no Atlântico sul e no Oceano Índico que permitam fazer simulações das travessias.

Até chegar à fase de testes, foram necessários quatro meses de carpintaria de precisão sob o comando Mário Figueiredo que, com a sua equipa de 12 ‘aprendizes de carpinteiro naval’ passou longas horas no Alfeite a seguir à risca os desenhos entregues pelo IST.

»Em Março, deram-nos os desenhos e desde aí tem sido a menina dos olhos deste curso«, disse Mário Figueiredo, que partilha com Nuno Fonseca o sonho de ver uma réplica em tamanho real da nau.

»Toda a gente participou na montagem. Inicialmente tinham-nos pedido apenas a querena, a parte mais baixa do navio, mas quisemos fazer tudo, inclusive os mastros. Foi uma guerra para conseguir manter os prazos, a trabalhar todas as manhãs ao longo de quatro meses, mas foi feito«, declarou, sem disfarçar o orgulho.

Cumprir prazos tornou-se ainda mais complicado quando a prática da construção demonstrou que a teoria dos desenhos vinha acompanhada de pequenos erros de cálculo.

»Fizemos fielmente o que vinha nos planos mas nas ligações tivemos que fazer algumas alterações, porque a madeira não queria ceder, o que é uma indicação que, à partida, o original não teria bem aquela forma. Foram milímetros mas tivemos que retirar material para tornar o casco mais fluido, o que seria mais natural naquela época«, revelou o construtor naval.
Antes do contacto com as madeiras para a construção da réplica, Mário Figueiredo e os seus formandos tiveram um primeiro contacto com a madeira original, a quilha recuperada em S. Julião da Barra, que se encontra no Centro Nacional de Arqueologia Subaquática.

»Tocar na nau [original] foi um momento muito importante para mim e para os formandos, como motivação. Estamos a reconstruir algo que tocámos«, sublinhou o construtor naval, que também fez questão de visitar o espólio da Nossa Senhora dos Mártires no Museu da Marinha em Lisboa.

O trabalho de construção da réplica foi acompanhado na Universidade do Texas com a criação de um modelo de realidade virtual, que permite ’embarcar’ na Nau da Pimenta, um navio com cerca de 50 metros de comprimento, um peso de 1.300 toneladas quando carregado e que chegava a ter a bordo mais de 500 pessoas, que se amontoavam nos poucos espaços deixados livres por mercadorias e provisões.

Aquilo que queremos fazer é uma recuperação deste património histórico de Portugal, relativo a uma fase que foi importantíssima na história mundial e que iniciou a globalização«, afirmou Nuno Fonseca, que lamenta que o País não dê o devido valor ao seu património arqueológico, assim como a destruição provocada pelos caçadores de tesouros.

»Era de facto bastante importante que se desse ao património como os navios naufragados o mesmo valor que se dá ao património que temos em terra. Os vestígios têm sido destruídos pelos caçadores, que se preocupam apenas com as componentes com valor«, disse.

Mário Figueiredo e Nuno Fonseca alimentam o desejo comumde ver a Nossa Senhora dos Mártires reconstruída à escala real. O primeiro vê nesse sonho uma oportunidade de aplicar novas tecnologias da construção naval a barcos quinhentistas, o segundo perspectiva a hipótese de divulgar a História de Portugal ao resto do mundo.

Por enquanto, Mário Figueiredo e Nuno Fonseca têm de contentar-se com um bem sucedido primeiro ensaio, com 3,5 metros de comprimento, cerca de 300 quilos de peso e casco pintado de amarelo.

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